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Recursos Humanos

Learning Organizations

Américo Marques Ferreira

John J. Oppenheim Cymbaum

 

"Justamente quando decorei todas as respostas da vida, mudaram todas as perguntas."

 

Nao pretendemos submeter o leitor a mais um artigo que começa traçando um cenário do atual ambiente empresarial. Uma inevitável saraivada de termos e conceitos como globalizaçao da economia, reengenharia, qualidade total, benchmarking, parceria, world class company etc etc etc... fatalmente dariam colorido ao texto, induzindo ao mesmo tempo a uma certa excitaçao por adentrar em novos territórios, desbravando novos conhecimentos. Ou talvez nem tao novos assim...

Certamente, há bastante familiaridade com o ambiente ultra competitivo em que progressivamente estamos entrando. Todos temos vivenciado suas conseqüencias. A entrada de novos concorrentes, a busca de novos mercados, a introduçao de novas tecnologias tem trazido uma vertiginosa sensaçao de que, subitamente, tudo o que sabemos pode ser reduzido a nada. Isso nos traz a outro desses conceitos que tem sido insistentemente repetido, a mudança de paradigmas. Premissas básicas que por longos anos nortearam a açao empresarial perdem a condiçao de verdades inquestionáveis. É preciso questionar tudo, revendo essas verdades. E a cada mudança de premissas, o conhecimento prévio, a experiencia acumulada deixam de configurar vantagem competitiva. Todos ficam igualados no nível de conhecimento zero.

O que há em comum entre todos esses termos e conceitos? Para qual direçao convergem as tendencias identificáveis por traz deles? Competitividade crescente, complexidade crescente, velocidade das mudanças crescente. O perfil do profissional e da organizaçao adaptados para atuar nesse ambiente nao podem mais basear-se tanto na "bagagem" de conhecimentos e experiencias. Cada vez mais coloca-se a necessidade de ter habilidades e postura para aprender a partir dos fatos e rever modelos de açao. Mas nao se trata apenas de assumir novos paradigmas. Trata-se de abandonar modelos que supoem condiçoes ambientais de longa duraçao por outros capazes de lidar com a contínua instabilidade.

A primeira vista, como mais um desses novos termos e conceitos, surge a concepçao de Learning Organizations. A expressao, que pode ser traduzida como "Organizaçoes de Aprendizagem", é uma síntese das respostas apresentadas pelas organizaçoes de vanguarda aos desafios ambientais. Pode ser entendido como uma expressao concreta dos paradigmas emergentes, que objetivam ser adequados a uma condiçao de permanente mudança. Uma Learning Organization nao propoe a seus integrantes modelos fixos para a açao, baseados em estruturas e sistemas rígidos, mas estimula e sustenta uma atitude de aprendizagem contínua, de constante reinvençao das práticas organizacionais, considerando a evoluçao das condiçoes ambientais.

 

Como assinala David Garvin em artigo para a Harvard Business Review (julho-agosto/93), "Como uma organizaçao pode alcançar melhorias sem primeiro aprender algo novo? (...) Na ausencia de aprendizagem, companhias e indivíduos simplesmente repetem velhas práticas. Mudanças permanecem cosméticas e as melhorias sao ao mesmo tempo fortuitas e de curta duraçao". Muitas empresas de grande porte tem reconhecido a estreita relaçao entre seus objetivos estratégicos de melhoria da performance do negócio como um todo e a aprendizagem organizacional e, em funçao disso, tem redirecionado seus esforços. De acordo com a definiçao de Garvin: "Uma Learning Organization é uma organizaçao com habilidade para criar, adquirir e transferir conhecimentos, modificando seu comportamento de modo a refletir novos conhecimentos e percepçoes".

Peter Senge, um dos precursores desse novo conceito, apresenta em seu livro A Quinta Disciplina os 5 componentes básicos para o desenvolvimento de organizaçoes realmente capazes de aprender:

Raciocínio sistemico: refere-se r capacidade de ter uma visao global dos fatos relevantes r vida das organizaçoes, percebendo a inter-relaçao entre fenômenos que tendem a ser interpretados de forma isolada;

Domínio Pessoal: enfoca o desenvolvimento dos valores espirituais realmente importantes para as pessoas, concentrando a energia para o alcance dos objetivos e cultivando a paciencia necessária para atingi-los.

Modelos Mentais: sao constituídos pelas convicçoes e idéias mais arraigadas, a partir das quais os indivíduos estabelecem sua visao pessoal do mundo; a falta de consciencia acerca desses modelos faz com que aceitemos certas interpretaçoes dos fatos como verdades inquestionáveis;

Objetivo Comum: trata-se do estabelecimento de uma verdadeira mobilizaçao das energias e vontades de um grupo em uma direçao convergente, uma "imagem do futuro" compartilhada por todos;

Aprendizado em Grupo: é o processo de obtençao de sinergia pela integraçao da capacidade de aprendizagem dos indivíduos; sua base é a habilidade de através do diálogo raciocinar em grupo; dado o atual grau de complexidade das organizaçoes, o aprendizado relevante para o desempenho do negócio ocorre muito mais em grupo do que individualmente.

Essa é a natureza fundamentalmente original das Learning Organizations. Nelas o aprendizado é prioritariamente compreendido como um processo grupal. Por outro lado, seu conteúdo nao está restrito ao âmbito cognitivo, sendo uma aprendizagem que afeta nossas convicçoes pessoais e nosso modo de ser.

A prática das organizaçoes mostra-se fortemente contaminada pela idéia de copiar, desde a imitaçao de produtos, passando pela adoçao de modelos organizacionais concebidos fora da realidade específica de cada ambiente, de cada mercado, até a pura e simples reproduçao de estratégias de empresas líderes de mercado. O mau entendimento ou o reducionismo do conceito de benchmarking veio a reforçar esse tipo de postura. "Follow the leader", diz o bordao! A imitaçao leva a resultados medíocres, quando nao ao irremediável fracasso. Aprender a perceber o ambiente com os próprios sentidos, reinventando a cada momento a própria organizaçao, os processos e os negócios sao o caminho que tem realmente conduzido as empresas ao sucesso.

 

A aprendizagem da organizaçao pode ser vista como um ciclo. No desenvolvimento de suas atividades normais, suas rotinas e processos de negócio, cada organizaçao, através dos indivíduos que a constitui, realiza açoes que desencadeiam respostas do ambiente. Essas respostas sempre contem informaçoes que sao processadas pelos indivíduos como um feedback de suas açoes. Em ambientes relativamente estáveis, longos ciclos de feedbacks constantes reforçam a manutençao do comportamento, o que nao gera aprendizagem. Nas condiçoes ambientais atuais em que se realizam os negócios, com freqüencia surgem sinais desfavoráveis em relaçao a açoes que até um momento atrás mostravam-se adequadas. Quando isso ocorre, há uma reavaliaçao da açao em busca de um feedback positivo do ambiente. Entretanto, a simples mudança do comportamento pode nao estar relacionada com a aprendizagem se nao houver uma revisao dos modelos mentais que dao base para a açao. A ausencia de uma aprendizagem profunda faz com que o conhecimento disponível ao efetivo melhoramento organizacional nao seja consolidado, evaporando-se tao logo ocorram novas mudanças nas condiçoes ambientais. A organizaçao, bem como cada um de seus integrantes, tenderá a reacomodar-se na prática do comportamento anterior, o qual está efetivamente alinhado com seus modelos mentais.

Outro aspecto a considerar no ciclo de aprendizagem da organizaçao é que a consolidaçao do conhecimento depende também de que a revisao dos modelos mentais seja compartilhada pelo conjunto dos membros da organizaçao. A revisao de modelos mentais apenas em nível individual conduz a uma aprendizagem fragmentada, perigosamente desarticuladora quando consideramos a organizaçao em termos sistemicos.

O grande desafio que paira sobre as organizaçoes no limiar do Século 21 é a busca da sobrevivencia adaptativa num ambiente cada vez mais incerto e turbulento. Nessas circunstâncias, basear o processo decisório apenas no lastro de experiencias acumuladas ao longo dos anos, é tao absurdo e arriscado quanto dirigir por uma estrada olhando somente pelo retrovisor.

Aos pioneiros do terceiro milenio restará a alternativa de exercitar sua capacidade criativa "singrando mares nunca dantes navegados".

As empresas que souberem estimular um ambiente de permanente aprendizagem obterao saltos quânticos frente aos seus concorrentes, garantindo assim a tao almejada vantagem competitiva.



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